Instituições financeiras estão expostas ao risco de desmatamento, mas há solução para a crise

Insight / 14 May 2025

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Em sua primeira carta dirigida a líderes mundiais, ao setor privado e à sociedade civil, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, destacou recentemente que a mudança é inevitável — ocorrerá por decisão consciente ou diante de uma catástrofe. Em seu apelo por ação, enfatizou: “A humanidade precisa de você.”

Entre os atores influentes nessa jornada coletiva (um “mutirão”, segundo Corrêa do Lago), estão as instituições financeiras. Investidores e financiadores, assim como o resto da sociedade, também enfrentam o desafio de ação ou calamidade, inclusive em relação ao risco de desmatamento. 

As instituições financeiras estão expostas aos riscos socioambientais por meios de investimentos, serviços ou empréstimos a empresas que produzem ou utilizam commodities agrícolas com alto risco de desmatamento, como carne bovina e couro. Essa exposição pode ser direta ou indireta e também envolve riscos relacionados a violações de direitos humanos, como trabalho análogo à escravidão e conflitos fundiários.

Impulsionado por ciclos negativos de retroalimentação entre clima e natureza, o desmatamento configura-se como um dos principais catalisadores das mudanças climáticas, contribuindo para a elevação das temperaturas e a intensificação da variabilidade climática, incluindo eventos extremos de seca e precipitação.

Empresas com elevada exposição a riscos associados ao desmatamento não apenas contribuem para a perpetuação desses ciclos, mas também sofrem diretamente seus efeitos. Entre as consequências estão a redução da produtividade, o aumento dos custos de produção e a perda de competitividade no mercado. Para as instituições financeiras, tais impactos podem se refletir na escassez de ativos líquidos, no aumento da inadimplência e na desvalorização de ativos, ampliando o risco sistêmico e exigindo maior atenção à integração de critérios ambientais nos processos de análise e gestão de risco.

Sendo a principal impulsionadora do desmatamento em escala global, a pecuária ocupa uma posição central nessa equação — com o Brasil concentrando cerca de 60% do desmatamento global associado à conversão de áreas em pastagens.

Enfrentar essa realidade exige mais do que adaptação: requer o reconhecimento do papel ativo do setor financeiro na dinâmica do desmatamento. Isso porque tais riscos não são apenas externos ao sistema financeiro, mas endógenos, refletindo uma materialidade dupla: as instituições financeiras, por meio de seus investimentos e financiamentos, podem tanto impulsionar quanto conter o avanço do desmatamento. 

Trata-se não apenas de mitigar riscos imediatos, mas de fortalecer a resiliência dos portfólios e contribuir para a estabilidade financeira de longo prazo, diante de um contexto global cada vez mais sensível às questões ambientais.

No Brasil, onde a pecuária, a agricultura e a mudança do uso da terra representam cerca de 75% das emissões nacionais, enfrentar o desmatamento é particularmente crítico para investidores que buscam alinhar seus compromissos climáticos com portfólios de emissão zero.

Embora alguns líderes do setor financeiro tenham progredido, 80% das instituições financeiras com maior influência na pecuária permanecem inertes. Menor lucratividade, volatilidade dos ganhos e estagnação de ativos podem se traduzir em perda permanente no valor de empréstimos e investimentos mantidos por instituições financeiras.

Se por um lado há riscos financeiros e de reputação, por outro, estabelecer mecanismos financeiros que melhorem o acesso ao crédito para fazendeiros com melhores práticas na cadeia da pecuária, por exemplo, pode aumentar a lucratividade ao mesmo tempo em que alivia a pressão sobre os ecossistemas naturais. Esses mecanismos também ajudam a aumentar a produção, renda dos fazendeiros e reduzir os riscos de crédito.

Felizmente há dados e orientações suficientes, que foram aplicados por especialistas do setor financeiro, para apoiar as instituições a enfrentarem essa preocupação. Entre os materiais disponíveis está o Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento, que fornece informações práticas e ferramentas essenciais para instituições financeiras avaliarem e gerenciarem os riscos de desmatamento de seus portfólios dentro do contexto da pecuária brasileira, definindo claramente os requisitos regulatórios que as instituições devem cumprir ao longo da cadeia da pecuária no Brasil.

Às instituições financeiras que ainda não iniciaram a jornada de transição, o momento é agora, com melhores práticas em mãos. De acordo com o Roteiro de Finanças Livres de Desmatamento, instituições financeiras podem completar a transição em quatro anos a partir do início do jornada. Ele foi originalmente lançado por um grupo de especialistas internacionais líderes em finanças sustentáveis, e agora está disponível e adaptado para a realidade do Brasil.

Adiar a ação agora só tornará a ação efetiva mais cara e difícil no futuro. Em tempos de COP30 e o chamado para a “luta do século” contra as mudanças climáticas, as palavras do presidente Corrêa do Lago precisam ser constantemente relembradas: “Agora é o momento de deixarmos para trás a inércia, o individualismo e a irresponsabilidade para abraçarmos as melhores versões de nós mesmos por meio da criatividade, da solidariedade e da perseverança.”

Sobre a autora: Isadora Carvalho é Líder de Engajamento em Finanças Sustentáveis na Global Canopy.

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