“Esses bois são financiados por alguém”

InsightPodcasts / 20 Dec 2024

No dia 11 de dezembro, o webinário de lançamento do Floresta 250 – Pecuária reuniu insights de especialistas sobre novos dados apresentados, destacando os principais atores que influenciam o desmatamento na cadeia da pecuária brasileira.

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Moderado por Cinthia Leone, do Climainfo, o evento contou com painelistas da Global Canopy, WWF-Brasil, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e Instituto Centro de Vida (ICV).

Um nível preocupante de inação

O Floresta 250 – Pecuária avalia as organizações quanto à força e implementação de seus compromissos sobre desmatamento, conversão de ecossistemas e violações de direitos humanos associadas.

Apresentando os principais achados da avaliação de base, Isadora Carvalho, Líder de Engajamento de Finanças Sustentáveis da Global Canopy, apontou que a grande maioria (80%) dos líderes da pecuária estão ignorando suas ligações com o desmatamento brasileiro. “Os compromissos não são suficientes por si só; são um primeiro passo em direção às melhores práticas”, explicou Isadora. Ela acrescentou que mesmo entre as empresas e instituições financeiras que publicaram políticas de combate ao desmatamento, a publicação de evidências sobre a implementação dos compromissos ainda é insuficiente.

O relatório também concluiu que as empresas e as instituições financeiras estão ignorando a ligação entre o desmatamento e as violações de direitos humanos. “O desmatamento não está relacionado apenas aos impactos ambientais”, destacou Isadora. “Está intimamente ligado aos abusos de direitos humanos.” 

“Vemos este estudo como uma linha de base”, observou Isadora. “Nosso objetivo é ter uma visão geral do desempenho atual dessas 175 empresas e 75 instituições financeiras. No próximo ano, perto da COP30, planejamos lançar uma segunda avaliação e esperamos que estas organizações tenham feito algum progresso em direção às metas e marcos da COP30.”

Dados existentes viabilizam ações eficazes

Todos os painelistas enfatizaram a necessidade urgente de o setor privado dar mais atenção ao desmatamento. Eles concordaram que já existem dados suficientes para que o setor mude as práticas com ações eficazes. 

Raoni Rajão, Diretor de Políticas de Controle do Desmatamento e Queimadas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, observou que o “Ministério Público, há pelo menos dez anos, tem auditorias com dados transparentes. Qualquer financiador tem acesso a essas informações para verificar o nível de compliance dos principais frigoríficos do país nesse quesito.” Ele questionou, entretanto, a inação do setor privado: “Isso se reflete em taxas de juros mais baixas hoje? Isso se reflete em melhores decisões de mercado? Esses dados estão disponíveis, mas não estão sendo usados da melhor maneira possível. A conversa é sobre como usar os dados já existentes.”

Jaciele Davi, Analista Sênior de Conservação do WWF-Brasil, enfatizou o papel fundamental do setor financeiro no Brasil. Ela explicou que, embora algumas instituições tenham feito progressos, com a formação de coalizões e o engajamento com empresas investidas, ainda há muito o que se caminhar. “A mudança que gostaríamos de ver é que cada vez mais fossem implementadas e cumpridas as promessas, com compromissos práticos, metas quantificáveis e prazos [ambiciosos].”

Jaciele também enfatizou que as empresas precisam envolver questões ambientais, sociais e de governança (ESG) em suas operações principais. “Temos que acabar com esse olhar setorizado do ESG. Isso não é algo que pode ser colocado de lado.” Em vez disso, ela sugere que as empresas olhem “para a boa gestão do uso do solo, para a transparência das cadeias, e responsabilidade de todos os elos da cadeia de valor”. Ela conclui que, sem colocar o meio ambiente no centro da discussão, “nós não temos uma sociedade igualitária e saudável, e sem isso não há bom desenvolvimento econômico para os países.”

Colaboração entre os setores público e privado

Raoni destacou a importância de integrar esforços dos setores público e privado. Ele compartilhou as estatísticas do Ibama que revelam que 77% das áreas embargadas na Amazônia continuam a mostrar sinais de atividade ilegal. “Esse boi e essa produção de grãos na Amazônia estão sendo financiados por alguém. Esse boi não morre de velho, ele está sendo vendido para alguém. Se não tivermos uma soma de esforços vindo do setor privado, dificilmente o governo sozinho vai conseguir chegar no desmatamento zero.” 

Alice Thuault, Diretora Executiva do ICV, partilha deste sentimento, sublinhando a importância da colaboração entre o setor privado e a sociedade. “As soluções têm de ser construídas e desenvolvidas em conjunto com os agricultores e a sociedade – tem de ser uma construção coletiva”, afirmou. Ela destacou os desafios recentes à Moratória da Soja na Amazônia do estado do Mato Grosso e refletiu: “Esses acordos [de combate ao desmatamento] só podem existir se houver um posicionamento firme também de fora do Mato Grosso para tentar acabar com as posições ideológicas de dentro do estado. Precisamos de um setor privado forte, um setor financeiro forte que desempenhe o seu papel nisso.”

Rumo à COP30

Isadora e Alice alertaram que a COP30 em Belém – embora seja um marco importante – não será uma solução “mágica”. “É uma oportunidade para nós, em 2025, transformarmos essas palavras em ações – garantir que os compromissos se transformem em resultados reais”, explicou Alice. 

Raoni destacou a importância da atenção global ao desmatamento e à proteção florestal, observando que “a COP30 dará ênfase especial às florestas, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Vemos isso como um momento para consolidar as melhores práticas e desenvolver outras atividades que já estão em andamento.”

Os painelistas concordaram que esforços para aumentar a transparência são essenciais e que devem ser orientados por dados e coordenados tanto pelo setor privado quanto por governos. “Trata-se de olhar para o copo e decidir se está meio cheio ou meio vazio”, disse Alice. “O Brasil tem muitas tecnologias e possibilidades e acho que precisamos enfatizar isso.”

Para mais informações, leia o relatório Floresta 250 – Pecuária na íntegra e assista à gravação do webinário.

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